Ainda estamos aí para o Cinema Nacional
Entre crises, retomadas e prêmios internacionais, o audiovisual brasileiro entra em a nova fase de visibilidade e gera um legado na nova geração
por Luiza Borgli
Por mais que o cinema nacional tenha ganhado grande visibilidade devido ao seu recente lugar nos holofotes de Hollywood, a influência desta arte não é de hoje. De acordo com dados da Cinemateca Brasileira e da Academia Brasileira de Cinema, as primeiras exibições no Brasil ocorreram em 1896, poucas semanas após a chegada do cinematógrafo na França. Desde então o cinema brasileiro passou de produções artesanais para uma indústria com ciclos, crises e retomadas.
Após o período de editais interrompidos, a redução do Fomento ao Setor Audiovisual e os impactos da pandemia, responsável por fechar as salas e reduziu o público, o cinema nacional vem recuperando a sua força graças ao crescimento do streaming e a recuperação do volume de produções. Essa presença progressiva do cinema nacional nas salas têm atraído novos fãs e dado maior visibilidade à nossa arte. Um dos maiores exemplos desta crescente é o longa “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho, que além de atrair 273 mil espectadores na sua semana de estreia no Brasil, também faturou os prêmios de “Melhor Filme Internacional” no Critics Choice Awards e no Globo de Ouro.
O filme conta a história de Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um pesquisador que volta para Recife depois de ser perseguido por uma organização criminosa, tornando-se peça-chave em uma investigação que envolve política, tecnologia e um esquema de corrupção que ameaça sua própria vida. O professor, André Pereira, contou as suas impressões sobre a obra:
“ Eu gostei porque é, vamos dizer assim, mais agitado do que o normal, do que é de costume no cinema nacional. É bem diferente, bem dinâmico e também interessante que a gente passou a conhecer mais a cultura regional de Recife.”
Já William Trevisani, professor universitário, que dá aula sobre cinema e comunicação em Minas Gerais, comentou não só sobre as suas impressões do filme, mas tabém sobre a sua temática, um fator que o atraí para ir aos cinemas:
“É um filme muito bonito e definitivamente não é para qualquer um. Tem gente que se perde um pouco na ordem cronológica do que está acontecendo ali, e de repente só depois pensa: ‘Ah, agora entendi!’. Eu, particularmente, gosto muito de filmes que tratam da ditadura, porque foi um período extremamente triste da nossa história. E achei muito interessante a forma como isso foi colocado no filme, tanto na trama quanto na atuação da Fernanda Torres. São maneiras diferentes de contar um assunto que ainda dói muito na memória de quem viveu e que, ao mesmo tempo, incomoda um pouco quem não viveu e acaba conhecendo essa realidade pelo cinema.”
O filme de Kleber Mendonça Filho segue o legado de “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, que recebeu reconhecimento e honrarias nas premiações internacionais e que conquistou o prêmio de “Melhor Filme Internacional” no Oscar. Esse feito trouxe muitos de volta para o cinema, como foi o caso de André Pereira, que falou sobre a suas expectativas para o Brasil nesta temporada de premiações:
“A gente começou o ano passado, meio torcida tipo Copa do Mundo. Ficamos torcendo e tudo mais, né? Então esse ano parece que vai ser também. Eu costumo ler sobre matéria sobre o assunto e tudo mais.”
Porém, qual a razão das premiações internacionais influenciarem tanto o consumo de cinema nacional nos últimos anos? Será que está é a única razão para as sessões de cinema nacional estarem lotadas? William Trevisani apontou suas opiniões acerca do assunto:
“O imperialismo norte-americano sempre prevaleceu no nosso país. Hoje em dia, tem gente que fala inglês fluentemente, mas não domina o português corretamente e isso é algo que precisamos levar em consideração. Mas eu acho que esses dois filmes, tão premiados recentemente, elevaram o cinema nacional a um novo patamar internacional. Agora não dá mais para virar a cara para o que é produzido aqui. As pessoas estão percebendo de novo que o cinema brasileiro tem valor, e não se resume a mostrar pobreza, que é justamente o que muitos não querem ver. Essa nova valorização nos festivais deve trazer o público de volta às salas de cinema.”
William Trevisani também acrescentou sobre a importância do cinema nacional e como ele enxerga esta arte e o seu cenário:
“A gente passou por um período de apagamento da nossa cultura e do cinema, principalmente. Mas, nos últimos três anos, estamos vivendo um resgate, e a repercussão disso tem resultado quase em um renascimento popular do cinema nacional… Muita gente não procura conhecer o que o cinema brasileiro tem de bom. E, no fim das contas, sendo bom ou ruim, o cinema nacional é a cara do brasileiro. As pessoas precisam ter respeito por isso. Tem profissionais com recursos para fazer filmes com um acabamento impecável e outros que não têm as mesmas condições, mas ainda assim produzem obras ricas, importantes e cheias de identidade. Nosso cinema é o retrato do país, está na tela aquilo que está na cultura brasileira.”
Estamos em uma fase do cinema onde o Brasil se reflete nas telas e o audiovisual reflete as dores, contradições e riquezas da nação. Obras como O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui funcionam como vitrines internacionais, mas também como espelhos internos, lembrando que a nossa identidade audiovisual sempre foi maior do que os períodos de apagamento. Se o público está voltando às salas, é porque começa a reconhecer, ou redescobrir, que o cinema nacional não apenas sobreviveu, mas voltou a ocupar o lugar de potência.
Chegou a hora de prestigiar nossas histórias. Levanta do sofá e vem para o cinema brasileiro!
A Central de Notícias da Rádio Futura é uma iniciativa do Projeto “Revolução na psiquiatria: A humanização no legado de Nise da Silveira!”. Este projeto foi realizado com o apoio da 9ª Edição do Programa Municipal de Fomento ao Serviço de Radiodifusão Comunitária Para a Cidade de São Paulo.




